Algoritmos podem ser empecilhos na luta do Facebook pelo ‘bom jornalismo’

Por Redação em 20.04.2017 às 15h50 - atualizado em 20.04.2017 às 17h11
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O Facebook vem empreendendo inúmeros esforços para dar vez ao bom jornalismo dentro de sua rede social. A companhia anunciou recentemente um projeto para estreitar os laços entre a plataforma e a indústria de notícias, além de ter reforçado as suas barreiras contra notícias falsas. Tudo muito bonito e importante, não fosse exatamente a estrutura do Facebook um grande empecilho para que isso prospere.

Os famigerados algoritmos do Facebook podem funcionar como uma barreira para a prática do bom jornalismo dentro da rede. Quem levantou esta bola foi o editor de notícias digitais do jornal Chicago Tribune Kurt Gessler. Ele publicou um longo texto no Medium detalhando como a maioria das postagens de seu veículo estão sendo de alguma forma ignoradas pelos algorítimos.

“Desde janeiro deste ano, nós do Chicago Tribune começamos a notar de forma curiosa uma mudança significativa no alcance de nossas postagens”, escreve Gessler já na abertura do texto. “Não temos visto uma enorme diferença no consumo de postagens ou no alcance médio diário, mas começamos a ver mais erros do que acertos”, prossegue o profissional, destacando que, no geral, muitas postagens ficam “ocultas” para a maioria das timelines de quem segue o veículo pelo Facebook.

Alcance abaixo da média

No geral, relata Gessler, a maioria das postagens do Chicago Tribune no Facebook tem um alcance que varia entre 25 mil e 50 mil pessoas — “com alguns grandes sucessos e algumas falhas espetaculares”, comenta o editor. Contudo, desde janeiro de 2017, o veículo de imprensa tem notado mais erros do que acertos, com alcances bem inferiores a 20 mil pessoas. Há casos de um alcance que não ultrapassou 4 mil pessoas.

Gráfico mostra a queda da média de alcance das postagens do jronal. (Foto: Kurt Gessler/Medium)

A partir de janeiro deste ano, o alcance orgânico médio por postagem do jornal sofreu um enorme declínio (gráfico acima). E isso apesar de o alcance orgânico diário das publicações do Tribune aparentarem um comportamento normal. “A média foi caindo precipitadamente”, escreve Gessler.

Mais posts com menos visualizações

Outro dado interessante revelado pelo editor do Chicago Tribune é o crescimento significativo do número de postagens que sequer ultrapassam a barreira dos 10 mil alcances. Até dezembro de 2016, elas eram minoria, com a maior parte das postagens chegando entre 25 mil e 50 mil pessoas. Contudo, a partir do início de 2017, o número de postagens com poucas visualizações tem um crescimento vertiginoso.

Número de postagens com menos visualizações aumentou a partir de janeiro. (Foto: Kurt Gessler/Medium)

Por incrível que pareça, a queda no alcance das publicações não tem a ver com uma estagnação do crescimento da página. Ao contrário disso, mesmo a partir de janeiro deste ano, o número de curtidas que o Chicago Tribune recebeu no Facebook apenas aumentou, mantendo um crescimento constante ao longo de todo o último ano.

Razões para a queda?

Uma das possibilidades que Gessler levanta (e ele mesmo derruba) em sua avaliação é que podem ter crescido o número de postagens na página do jornal. Contudo, a média em junho de 2016 era de 23,6 posts por dia, enquanto em março de 2017 foi de 24,1 posts. Ou seja, uma mudança insignificante e que por si só não explica a queda do alcance indicado pelas estatísticas.

Outra questão apontada por Gessler é a do mix de tipo de conteúdo “exigido” pelo Facebook para uma página ser bem sucedida. O editor aponta o dado de que o ideal seria ter 50% links, 25% vídeo e 25% foto, o que não é feito pelo seu jornal. Porém, o profissional revela que nenhum outro veículo de imprensa apresenta uma divisão nestas proporções, ou seja, esta também não é a razão para a queda.

Por fim, ele cita ainda a não adoção dos Instant Articles, os artigos publicados por veículos diretamente no Facebook. Apesar disso, ele relembra que o formato das postagens feitas pelo Chigado Tribune não se alterou neste último ano, ou seja, esta também não é uma justificativa para as estatísticas problemáticas.

De volta aos algorítimos

Na parte final de sua exposição, Kurt Gessler cita o anúncio do final de janeiro feito pelo Facebook em que a empresa informa sobre os esforços para privilegiar as notícias autênticas em sua linha do tempo. A rede social informou ainda que daria mais destaques a assuntos em voga que parecem ser do interesse dos usuários, como a vitória de um time de futebol.

De qualquer forma, a priorização deste tipo de conteúdo não seria o suficiente para trazer uma mudança tão significativa no desempenho de um veículo de comunicação respeitável e autêntico como é o Tribune. Mesmo outras mudanças, como aquela da metade de 2016 que daria foco maior às publicações de amigos e familiares, também não aparentam ter qualquer efeito negativo sobre veículos de comunicação.

Enfim, os misteriosos algoritmos do Facebook parecem ter feito mais uma vítima. De repente, se mais veículos fizeram uma análise semelhante, teremos mais recursos para analisar uma possível alteração nos códigos da rede social. Por enquanto, tudo não passa de previsão.

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